Costumo dizer nas minhas palestras e mentorias uma frase que sintetiza nossa missão:
“Para ser um território, tem de ter posse, senão é só espaço...”. Enquanto a população de um município não se sente verdadeiramente dona e pertencente ao local onde vive, a gestão pública pode investir o que for em infraestrutura ou tecnologia que o lugar continuará sendo apenas um mapa frio, sem alma nem engajamento.
No dia 7 de outubro de 2026, tive a honra de vivenciar essa verdade na prática durante a 3ª Oficina de Capacitação, Inspiração e Nivelamento Conceitual da Região Sudeste da Rede Cidades +Inteligentes. O evento ocorreu na sede do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), na Cidade Universitária em São Paulo, reunindo mais de 50 participantes estratégicos entre gestores públicos, representantes do Ministério das Cidades, pesquisadores da UFRGS e especialistas de ecossistemas urbanos.
Foi satisfatório ver a sala cheia de lideranças dispostas a repensar o futuro de seus municípios e presenciar o ecossistema de inovação reunido com o propósito sincero de transformar a vida das pessoas.
O Desafio: quando a inteligência urbana corre o risco de virar apenas tecnologia
A Rede Cidades +Inteligentes – iniciativa do Ministério das Cidades coordenada nacionalmente pela UFRGS – está estruturando diagnósticos de maturidade em 22 municípios das cinco macrorregiões do Brasil. Na Região Sudeste, sob liderança técnica do IPT, o piloto abrange seis municípios centrais: Aracruz (ES), Campinas (SP), Lavras (MG), Saquarema (RJ), São Bernardo do Campo (SP) e São José dos Campos (SP).
Pela manhã, foram apresentados os panoramas preliminares dessas cidades, resultantes de um trabalho conjunto que envolveu 85 secretarias municipais e mais de 150 pessoas ouvidas em 11 eixos temáticos e 59 dimensões de análise.
E qual a dor recorrente que se observa em muitos projetos urbanos pelo país? Sem dúvida, é o risco de encarar a “cidade inteligente” como mero repositório de sensores, aplicativos ou dashboards, ou como mero formulário preenchido para pontuar em um ranking.
Existe uma tendência perigosa de buscar soluções padronizadas no mercado e tentar replicar modelos externos, esquecendo que a tecnologia é apenas um meio. Se não houver clareza sobre quem a cidade é e qual dor local precisa ser resolvida, o investimento vira vitrine vazia.
A Leitura da Alma do Lugar: vocação não se copia
Ao assumir o microfone para proferir a fala “DO ESPAÇO AO TERRITÓRIO: Como o Place Branding e a Identidade Constroem Cidades +Inteligentes”, levei uma provocação direta aos gestores: parem de tentar ser quem vocês não são e parem de negar quem vocês são.
Enfatizei que a verdadeira inteligência territorial surge quando o município descobre sua vocação real, sua essência singular, seu terroir e seu sotaque próprio. Aquilo que é peculiar a um lugar não pode ser copiado por nenhuma outra cidade do planeta.
Para ilustrar de forma prática essa transição do isolamento para a alta performance, compartilhei a trajetória de Pato Branco, minha cidade no interior do Paraná. Geograficamente isolada dos grandes centros e distante da capital, historicamente foi deixada de fora de grandes anéis de integração e investimentos estaduais. Seu povo, como resposta, desenvolveu um DNA batalhador e indesistível.
Esse DNA foi marcado desde a virada para o século XX pela Questão de Palmas e pelo Contestado, e moldado desde a época da colonização nos anos 1940 passando pelas lutas com a regularização das propriedades em conflitos com as companhias colonizadoras até as lutas na virada do século XXI com os investimentos em educação tecnológica.
Em vez de lamentar o esquecimento, envergonhar-se de seu “daí” – sotaque característico ao final das frases – o patobranquense tomou posse do seu destino. Essa energia e o sentimento de pertencimento geraram um ecossistema de inovação espontâneo e vigoroso:
- Hoje, Pato Branco é um município de quase 100 mil habitantes que abriga mais de 500 empresas de base tecnológica, dentre indústrias de software, hardware, startups ou que empregam tecnologia de ponta em seus processos.
- É berço de multinacionais de tecnologia para o agronegócio e de softwares que gerenciam a bilheteria dos maiores parques turísticos do país.
- Traduziu o mesmo DNA competitivo para os esportes de alto rendimento e grandes eventos regionais, transformando visibilidade em atratividade e novos negócios.
- Passou a enxergar o turismo como caminho de diversificação de sua oferta gerando movimento e visibilidade para sua identidade territorial, atuando em um ecossistema público-privado inovador nessa cadeia produtiva.
Então, demonstrei aos participantes que a identidade visual de um lugar – sua marca/logo – nunca deve vir primeiro. A marca visual é a consequência final de um diagnóstico profundo sobre o que é verdadeiramente marcante no território. Criar um “logo bonito” sem antes diagnosticar o sentimento de pertencimento é gastar energia pública em superficialidades.
Mais uma vez, recorri ao caso de Pato Branco demonstrando que, após reconhecida sua vocação e identidade, tendo reunido o ecossistema em uma rede operativa, avancei para a criação de sua marca visual, na qual procurei traduzir a diversidade de sua oferta representada em seu maior ícone, a Igreja Matriz São Pedro Apóstolo, representada por contornos que lembram as quadras e campos onde o esporte acontece, remetem às linhas de placas e circuitos por onde viaja a informação, e as linhas de conexão nas rotas do mapa local.
Como mensagem final, enfatizei que transformar espaço em território é, antes de tudo, um ato de pertencimento e posse. Quando a gestão pública e a comunidade trabalham a identidade local, as pessoas deixam de ser meras espectadoras do espaço onde vivem e passam a se sentir donas do seu lugar.
Reforcei que quem se sente dono, entra na luta! Foi assim no Sudoeste do Paraná: quando a população tomou posse do seu destino, a apatia deu lugar à ação, à inovação e ao orgulho. Quando a comunidade se reconhece como parte integrante da construção da cidade, ela defende o território, engaja-se nos projetos, acolhe os visitantes e faz a economia girar — simplesmente porque entende que o futuro do lugar é o seu próprio futuro.
A Intervenção: provocação e mentorias no World Café
No período da tarde, a oficina desdobrou-se em dinâmicas de World Café. A mentoria ocorreu nas mesas de trabalho de cada uma das seis cidades da rede piloto por onde circulei atuando diretamente provocação dos times técnicos ao lado de outros especialistas.
Dava pra perceber os olhos atentos dos gestores e as ideias fervilharem nas mesas. Durante os ciclos de conversa provocativa, trabalhei três eixos fundamentais com os municípios:
- Ambiente de Negócios e Competitividade (Eixo 6): Provoquei os times a identificarem e converterem sua vocação e seu terroir em produtos formatados, roteiros, eventos estruturados e pontos reais de conversão econômica.
- Gestão Urbana e Governança (Eixo 4): Mostrei que governança em rede se faz com conselhos propositivos e integração real entre secretarias conforme as vocações locais (TI, Esporte, Cultura, Agricultura, Turismo, etc.), treinando a ponta do serviço público para atuar como anfitriã e propagadora da imagem do território.
- Imagem, Identidade e Atratividade (Eixo 11): Estimulei a construção de BrandBooks comerciais desvinculados de marcas de gestão política, focando no pertencimento duradouro e no orgulho do morador.
O Resultado e o Legado: do diagnóstico ao plano de ação
O encontro no IPT deixou evidente que os diagnósticos de maturidade não servem para criar um ranking de competição, mas para embasar a construção das estratégias e planos de ação de cada município, que serão implementados nos próximos anos.
O evento contou ainda com a presença de municípios e ICTs observadoras do Sudeste, antecipando a expansão da Rede Cidades +Inteligentes que também prevê oficinas nas demais regiões do país.
Voltei dessa jornada com o coração aquecido e a certeza de que estamos pavimentando um caminho transformador. Quando a gestão pública compreende que a tecnologia é ferramenta e que o verdadeiro motor de uma cidade inteligente é o sentimento de posse e orgulho do seu cidadão, o espaço dá lugar ao território – e a transformação torna-se inevitável.
E por aí, qual é o sotaque e a força que o seu município ainda não transformou em valor?
